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Após as mais concorridas (seguramente) eleições, para a direcção da Casa de Repouso do Bom Jesus dos Mareantes de Caminha, realizadas há meio ano atrás, em que concorreram duas listas, gerou-se forte expectativa quanto ao futuro desta instituição, decorrente do enfrentamento visível na ocasião entre os apoiantes da lista vencedora encabeçada por António Silva, e a derrotada, tendo como candidato à presidência Rui Matos que tentava o quarto mandato à frente dos destinos desta casa.

A abertura de uma auditoria às contas da anterior direcção, a presença da Polícia Judiciária investigando a sua gestão (situação que remonta a 2010), as acções empreendidas pelos novos responsáveis da Casa de Repouso e seus projectos a médio e longo prazo, a par da tentativa de clarificação de algumas decisões tomadas recentemente, levaram-nos a entrevistar António Silva, presidente da Direcção.

C@2000: Nestes primeiros seis meses da sua gestão, já se verificaram grandes mudanças na Casa de Repouso?

 

António Silva: Já começaram e estão a decorrer. Tínhamos um projecto quando nos candidatamos e estamos a cumpri-lo, só que deparamos com uma situação bastante mais grave do que aquilo que estávamos à espera.

Cito o caso da protecção civil desta casa que estamos agora a tentar resolver mas que implica um investimento bastante avultado. Não existiam alarmes, portas corta-fogo e não se encontravam certificadas as medidas implementadas por uma empresa, uma vez que não tinha competência para o fazer.

Cito ainda o caso da existência de um carpinteiro nesta casa - caso único no país - que auxiliou a instalar essas medidas preventivas, obras essas que não estão certificadas, repito.

 

C@2000: Os utentes são a razão única da existência desta instituição. Qual o seu número actual?

 

AS: Temos 62. Faleceram seis e entraram outros tantos e temos cada vez mais em lista de espera.

 

C@2000: E quanto a funcionários?

 

AS: O número de funcionários diminuiu. Ao fim de dois meses, verificamos que esta casa estava um pouco à deriva. Dou como exemplo a inexistência de um único funcionário que soubesse os códigos do site e do e-mail desta instituição ou que nos pudesse informar onde estava a contabilidade, porque a funcionária meteu baixa e ainda hoje se encontra nessa situação, obrigando-nos a meter uma contabilista porque estavam quase em risco os salários desse mês. Inclusivamente a directora e a encarregada disseram-nos que nunca tiveram conhecimento de nada, nem tinham acesso à sala da direcção, enquanto que a sala da secretaria estava fechada à chave e a funcionária levava-a para casa.

Após a eleição, falamos com o presidente e o tesoureiro cessantes para que se processasse a passagem lentamente mas não o fizeram. Tivemos que começar tudo do zero. Não tínhamos qualquer elemento sobre a casa e decidimos então realizar uma auditoria, tal como já tínhamos prometido aos irmãos na assembleia geral.

Refiro que nós não despedimos ninguém, apesar de haver um quadro excedentário.

A encarregada, entretanto, demitiu-se, o carpinteiro chegou a acordo connosco porque não quis ir para outro cargo, quando lhe dissemos que não fazia sentido que uma IPSS tivesse um carpinteiro e a própria auditoria referia a inexistência de trabalho que o justificasse.

Estes foram os únicos funcionários do quadro que saíram.

Não despedimos ninguém apensa quebramos uma avença que tínhamos com um enfermeiro e em relação a um fisioterapeuta, pedimos-lhe um comprovativo da respectiva formação e a resposta foi um pedido de demissão há oito dias.

 

C@2000: Houve também um assessor da direcção - creio que era assim que se chamava -, que pediu também a demissão.

 

AS: Sempre apostamos no voluntariado. O dr. Bártolo esteve ao nosso lado, de uma forma gratuita, até que ao entrar numa nova fase da sua vida - e até por razões de saúde - deixou o cargo e pediu a demissão, embora seja uma pessoa que nós estimamos.

 

C@2000: Como escolheram o auditor?

 

AS: Publicitamos a auditoria junto de pessoas conhecidas que contactaram outras pessoas e tivemos cinco auditores candidatos que não conhecíamos, provenientes de vários pontos do país e que apresentaram os preços. Esta direcção teve a preocupação de escolher auditores que tivessem experiência neste tipo de instituições e credenciados, de fora da região, para que não sofressem influências nossas nem de qualquer pessoa daqui.

Não escolhemos a mais barata, nem a mais cara. Rondou os nove mil euros mais IVA. A auditoria está concluída mas estávamos sempre a encontrar coisas novas, pelo que à medida que enviávamos cartas aos fornecedores, aos familiares dos utentes, surgiam mais ramificações e o rol ia aumentando. Tivemos de reunir ao fim de três meses com os auditores e decidimos fazer uma paragem e tudo o que aparecer depois, nós acrescentaremos não a esta auditoria mas a uma outra, porque nós vamos continuar a auditar.

Publicaremos as conclusões desta primeira auditoria e enviá-las-emos às autoridades competentes, como seja o Ministério Público, Segurança Social, Cúria Diocesana e Finanças. Temos essa obrigação para com os irmãos, fazendo acompanhar essa auditoria com os nossos pareceres e os dos auditores.

C@2000: Pelo que nos diz, foram detectadas situações graves…

 

AS: Sim, há situações bastante graves no aspecto interno, a nível contabilístico e de acordo com o próprio direito canónico ou conforme os estatutos da Casa de Repouso. Houve algum interesse aqui instalado e um aproveitamento de parte de alguns elementos da direcção, dando como exemplo o facto de os estatutos estabelecerem que nenhum elemento da direcção pode ter negócios com a instituição, a não ser que esta tenha proveito com esse negócio, o que não foi o caso.

 

C@2000: No decorrer das eleições, muita gente dizia que o que se estava a passar era uma guerra entre dois bancos. Confirma-se isto, meio ano depois?

 

AS: É para explicar tudo isto, que no próximo dia 2, no Cineteatro Valadares, pelas 15 horas, e com transmissão através da Internet, vamos realizar uma sessão de esclarecimento.

Mas, adianto que nunca houve uma guerra de bancos ou de partidos. Houve sim, formas de estar diferentes. Os irmãos vieram pedir-nos ajuda para alterar a forma de funcionamento desta casa, porque ela funcionava de uma forma fechada. A direcção era eleita pelos irmãos e nunca mais na vida sabiam onde parava um cêntimo, que negócios se faziam. A Casa de Repouso não era obrigada a apresentar as contas à Confraria.

E digo-lhe que ainda bem que fomos eleitos porque vamos cumprir na íntegra o nosso programa, incluindo a nossa decisão de limitação de mandatos e para que a assembleia de irmãos possa aprovar as contas, para que esta casa seja transparente, o que nunca foi.

E em relação aos bancos, nos primeiros três meses, andámos a inteirar-nos do que é que se passava, porque nada possuíamos.

O próprio TOC desta casa estava bastante renitente em fechar as contas, o que só fez no último dia legalmente previsto, quando noutras instituições o tinha feito com antecedência.

Nós pedimos ainda a todos os bancos com quem trabalhávamos que nos indicassem as condições para saldos médios de contas à ordem e para taxas de juro de depósitos a prazo. As cartas vieram fechadas e eu tive o cuidado de que o banco onde trabalho fosse o primeiro a enviar por e-mail para que ficasse registada a data o dia e a hora. Felizmente, posso dizer-lhe que fomos o banco que apresentou a maior taxa de juro de remuneração de depósito à ordem e nenhum outro banco o fez. Independentemente disso, não deixamos de trabalhar com outros bancos existentes na praça.

 

C@2000: E como sucedia no passado?

 

AS: Antes, 60/70% do dinheiro estava depositado no banco do anterior presidente e o restante estava dividido, à ordem, por outros bancos.

 

C@2000: Havia aplicações financeiras em bancos, como se ouvia há muito?

 

AS: Havia uma aplicação financeira num dos bancos, conforme é referido na auditoria, no montante de 25.000€. Já pedimos por várias vezes a sua devolução, sem que o tivéssemos conseguido até ao presente, embora já tivessemos recuperado algum. Isto é ilegal e crime, porque as IPSS não podem constituir aplicações mas apenas depósitos a prazo puros.

 

C@2000: Mas, segundo parece, o saldo deixado pela anterior direcção ascende a 700.000€…

 

AS: Sim, até se falou em um milhão de euros, mas o valor é esse. O problema é que a instituição não está sustentável há já vários anos. Em 2009, esta casa deveria ter mais 150 a 200.000€ do que tinha em fins de 2012.

 

C@2000: Porquê? Em que se baseia para dizer isso?

 

AS: Pelas contas que vamos apresentar nessa sessão pública de esclarecimento.

 

C@2000: Porque optaram por essa sessão pública e não pela realização de uma assembleia geral para esclarecimento dos irmãos?

 

AS: Eu tive duas reuniões com o presidente da assembleia geral, exactamente na tentativa de fazer uma assembleia de irmãos, não só para expor a auditoria mas também para apresentar as contas de 2010 a 2013. O senhor presidente não achou oportuno fazer a assembleia pelo facto de não se ir tomar qualquer deliberação (nem a aprovação das contas, nem a auditoria), acrescentando ainda que uma condição para a sua concretização, seria a da entrega antecipada de toda a auditoria, tanto a ele, como aos irmãos. Nós entendemos que não, porque era na altura que os irmãos deveriam ter conhecimento dela.

 

C@2000: Já se fala há muito e continua a falar-se dos ouros e objectos pessoais dos utentes desaparecidos, bem como dos donativos dos utentes para entrarem para a instituição. Quer referir algo sobre isto?

 

AS: A auditoria abarcou a questão dos donativos, mas como se encontra em segredo de justiça, atendendo à existência de um inquérito por parte da Polícia Judiciária e Segurança Social, apenas posso dizer que a anterior direcção deveria ter-se demitido de imediato para que o inquérito em curso corresse sem que houvesse algo a esconder.

 

C@2000: Parece haver algum mau estar entre alguns utentes e seus familiares, pelo facto de pretenderem agora cobrar as despesas com medicamentos, fraldas e outros produtos de apoio aos internados, quando no passado isso não sucedia. Quer comentar?

 

AS: Esta é uma questão que eu iria levantar no próximo dia 2 de Agosto. Esta direcção está solidária com todos os utentes e seus familiares.

O que não vamos permitir é a ilegalidade de exigência de donativos para alguém entrar nesta casa. Nesta altura, isso não será exigido a alguém que pretenda ingressar no lar. Pagará apenas a reforma que tiver mais o complemento familiar que está legalmente previsto pela lei da Segurança Social.

Em todos os contratos que temos vindo a analisar e celebrados em anos anteriores, e já vamos em cerca de 70%, está escrito que os familiares ou utentes têm de pagar tudo o que seja serviços extra desta instituição: medicamentos, fraldas, fisioterapia, deslocações médicas, etc.

Está no preçário revisto em 2012 pela anterior direcção, pressionada pela Segurança Social.

Sinto-me triste porque nos últimos quinze dias, familiares dos utentes têm vindo falar connosco, dizendo-nos que tinham dado dinheiro de entrada e que não necessitariam de pagar mais nada (extras).

Eu disse-lhes que isso não era verdade, porque estava no contrato assinado por eles. Desafiei-os a fazer uma queixa ou a apresentarem um documento escrito em como isso foi dito e eu entrego-o ao senhor Vigário e às entidades competentes.

Mas, eles têm receio, ou da anterior direcção, ou de não serem bem atendidos no lar, acabando por não fazer qualquer queixa, dizendo-o verbalmente à nossa frente e dos funcionários mas, depois, acabam por ter de cumprir o que está na legislação em vigor.

 

C@2000: Essas entradas de dinheiro não estão escritas em acta ou não existem cheques comprovativos?

 

AS: Em 98% dos casos, era dado em dinheiro. O que sabemos oficialmente são os que estão registados em acta. Nós garantimos que se as pessoas nos comprovarem através de recibo ou nos disserem que entregaram esse dinheiro, nós iremos cumprir, por muito que isso seja lesivo da instituição. Só que isso não é um donativo.

Nós temos recebido cartas anónimas mas não temos receio, tal como gostaríamos que a população não tivesse receio e denunciasse estes casos.

Das sete pessoas que entraram este ano, não temos um único donativo. Não exigimos donativo, embora apreciemos que as pessoas no-los dêem mas, não como forma de entrar neste lar.

Espero bem que quando as investigações da Polícia Judiciária forem concluídas ou outros elementos vierem à luz, nós estaremos disponíveis para colaborar.

 

C@2000: É verdade que no passado apenas uma farmácia era a fornecedora do Lar?

 

AS: É verdade. Só uma farmácia fornecia a totalidade dos medicamentos durante estes nove anos. Assim como gostaria que me perguntassem quem era o principal fornecedor - de qualquer bem - deste Lar.

 

C@2000: E como é que funcionam os fornecimentos a partir da vossa entrada em funções?

 

AS: Como funcionou antes dessa direcção entrar. Distribuir mês sim, mês não, farmácia a farmácia, pelas duas existentes em Caminha, porque se houvesse três, distribuiríamos pelas três. Nós até deveríamos agora distribuir a receita pela que não foi contemplada nestes anos todos, como forma de compensação. Mas, como somos pessoas de bem e transparentes, não o fazemos. Nós, quando somos directores desta casa, temos que nos esquecer com quem nos damos bem ou com quem nos damos mal. Quem assim não o fizer, não deve entrar nesta instituição.

 

C@2000: E quanto ao futuro? Que projectos em mente? A designada "casa do Evaristo", por exemplo?

 

AS: Fomos apanhados de surpresa com algumas despesas que nos deixaram, com contratos assinados e vinculativos e com data posterior à nossa tomada de posse.

Quanto à questão que me coloca, há um processo a decorrer na Câmara Municipal há já vários anos e, segundo me informaram, foi chumbado várias vezes pelo IPPAR e desde 2009 que não anda, nem desanda.

Há uma falsidade no meio disto tudo.

Sempre nos disseram que esta obra ao lado do edifício do lar seria para a continuação da Casa de Repouso. Contudo, o projecto para esse local era para abrigo de mulheres vítimas de violência doméstica, o que não tem nada a ver com as valências desta instituição. Ia-se ali gastar cerca de meio milhão de euros numa valência inexistente.

Lamentamos esta questão das valências porque esta instituição tinha uma valência de centro de dia, publicada em Diário da República, mas a direcção anterior deixou-a cair em 2012. E, agora, não nos dão, apesar de já termos pedido. Como é possível não usufruir desta valência, quando Vilarelho e Moledo têm excesso de pessoas a querer apoio?

 

C@2000: Qual a situação financeira actual desta Casa de Repouso?

 

AS: Os erros de gestão cometidos ao longo de uma década foram graves. Quando a receita de uma IPSS é baseada em donativos, ela sobe até atingir um pico. A partir dali não pode subir mais, porque já tem cá os utentes e estes não aumentam. As quebras de receitas são brutais, assistindo-se a um retirar de dinheiro nos últimos três anos.

Esperamos voltar a colocar esta casa sustentável dentro de dois ou três anos.

Se nada fizermos, dentro de seis anos esta casa não terá dinheiro, como muitas outras IPSS.

 

Entrevista retirada do caminha2000

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publicado às 19:05


56 comentários

De caridade a 11.09.2014 às 13:13

All we need is love...
E uma caixa bem grande de prozac para aguentar tanta barbaridade.
O que o Sr. António diz... é de bradar aos céus.

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